domingo, 22 de julho de 2012

Texto AUSÊNCIA e PRESENÇA | Maria do Carmo de Freitas Veneroso


AUSÊNCIA e PRESENÇA: marcas, registros e grafismos do tempo e do espaço em movimento

                                                                                           Maria do Carmo de Freitas Veneroso

O homem sempre se interessou pela contagem do tempo, inventando novas e engenhosas maneiras de registrá-lo com instrumentos que hoje nos parecem arcaicos: clepsidras, ampulhetas, relógios de sol, e outros, mais aperfeiçoados, como os relógios de torre, pêndulos, relógios de pulso, cronômetros.

                                                                                          Jacques Le Goff

            Na exposição “Horizontes”, o gravador Tales Bedeschi promove um diálogo entre xilogravuras e fotografias de intervenções urbanas explorando grafismos encontrados nas ruas, indicando através de linhas, hachuras e marcas, o contraste entre ausência e presença no registro da passagem do tempo. Ele faz parte de um grupo de artistas emergentes mineiros que vem reafirmar o papel revolucionário que a gravura associada à intervenção urbana tem tido em Minas Gerais. Retomando o início da gravura no nosso estado, na década de 1960, pode-se ressaltar o importante papel desempenhado por uma geração de artistas, entre os quais destaca-se Lotus Lobo, gravadora que desenvolveu um instigante trabalho em litografia, apropriando-se das marcas da estamparia mineira, ao mesmo tempo em que participava de trabalhos coletivos de intervenção no espaço urbano, que tiveram grande repercussão na época.
            A atuação artística de Bedeschi também tem se dado nestes dois níveis, tendo a cidade como protagonista. Ele tece comentários sobre as mudanças ocorridas na paisagem urbana através de suas xilogravuras, ao mesmo tempo em que intervém na própria paisagem. Interessante perceber como o diálogo estabelecido entre seus trabalhos fornece uma chave de leitura, dentre inúmeras outras possíveis, para a apreensão dos mesmos: são registros gráficos das relações entre o tempo e o movimento, entre a presença e a ausência. Ao mostrar prédios que tomam o lugar antes ocupado pelas montanhas e pelo céu, na série Matriz Perdida, o artista dá a ver o ritmo das mutações visuais ocorridas na cidade. Ao fazer o movimento inverso, em Matriz Perdida Invertida, quando o céu e as montanhas vão recuperando seu espaço, ele remete, utopicamente, a um passado remoto, antes da interferência humana. Na série de intervenções Linha curva da terra, seu trabalho atinge uma escala macrocósmica ao registrar as mudanças das sombras provocadas pela luz solar, que como num relógio de sol, deixam perceber o movimento rítmico da Terra, girando sobre o seu próprio eixo e em torno do Sol. Também o foco, nas últimas xilogravuras, é o céu, e suas nuvens. Com seus trabalhos, ele parece aproximar céu e terra e neste jogo, faz lembrar as palavras de Ítalo Calvino em As Cosmicômicas: “[...] o mecanismo das fases se processava de modo diverso do de hoje; isso porque eram outras as distâncias do Sol, e as órbitas, bem como a inclinação de não sei bem o quê; daí ocorrerem a todo momento eclipses, com a Terra e a Lua assim tão juntas: imaginem se aquelas duas bolonas não faziam sombra continuamente uma à outra” (1992, p.7). É quase possível visualizarmos a cena narrada por Calvino e também as obras de Bedeschi compartilhando deste espaço fantástico criado pelo escritor. O artista, tal qual os personagens de Calvino, se coloca como protagonista da cena, orquestrando a posição da Terra no universo e as mudanças temporais.
            Nas xilogravuras, ele utiliza uma técnica tradicional – a matriz perdida, dando a ela uma abordagem nova ao criar uma narrativa visual a partir dos diferentes estágios da gravura. Percebe-se um certo saudosismo, uma idealização de um passado perdido, ao buscar a natureza virgem, antes da sua transformação pelo homem. Nota-se este mesmo saudosismo no gravador, que ao optar pelo trabalho com a xilogravura, que ele domina muito bem, fala também de um passado próximo, quando gravar significava antes de tudo cavar a madeira com a goiva, corroer a chapa de metal com o ácido ou processar a pedra litográfica quimicamente: trata-se de um artista do métier, inserido na contemporaneidade, ao mostrar-se consciente do papel social do artista, ao atuar sutilmente no espaço urbano, criando obras que extrapolam o espaço da galeria e são acessíveis a um público mais heterogêneo do que aquele que frequenta os espaços oficiais da arte. Ao levar os registros das intervenções para a galeria, ele problematiza a obra, ao expor as fotografias lado a lado com as gravuras. Porém, são duas faces de uma mesma poética e ao buscar equacionar esta questão de como a obra deve ser exposta, o trabalho cresce, pois também a leitura proposta pelo artista agrega significado à obra. Em todos estes níveis de atuação, Tales, a partir de deslocamentos mínimos, nos fala poeticamente de questões primordiais, indo de uma escala micro à macro: como a posição da obra afeta a sua leitura e sobre a posição do homem diante do universo infinito que o cerca.

Referências:
CALVINO, Ítalo. As cosmicômicas. SP: Compahnia das Letras, 1992.
LE GOFF, Jacques. História e memória. SP: Unicamp, 1990.



Maria do Carmo de Freitas Veneroso é professora titular da Escola de Belas Artes da UFMG